Como é estudar um mestrado em Portugal? Primeiras impressões – Vida em Portugal #06

Como é estudar um mestrado em Portugal? Primeiras impressões – Vida em Portugal #06

Olá, todos! Agora que completei meu primeiro semestre (prestes a entrar no segundo semestre), vou falar minhas impressões de como tem sido estudar um mestrado em Portugal. Eu conversei com uma amiga que estudou um semestre no bacharelado aqui e ela também concordou com tudo o que eu disse, então acredito que valha para ambos os níveis. Este será um post curto, porém pode ajudar algumas pessoas a terem uma noção de como é estudar mestrado nas terras lusitanas.

Mestrado em Portugal: dois dias de aula, cinco dias de trabalho

Antes de começarem as aulas, eu tinha essa ideia de que eu conseguiria conciliar muito tranquilamente um trabalho e as aulas na universidade. Poderia ajudar na renda de casa editando uns vídeos que trouxe do Brasil, fazendo um extras em restaurantes ou coisa parecida. Bastou a primeira semana de aulas para que essa visão mudasse. Aulas mesmo, presenciais, eu só tenho na sexta (9h às 20h) e no sábado (9h às 13h), mas o resto dos dias é preenchido (praticamente) com coisas a fazer do mestrado.

Os professores demandam de nós a cada semana uma carga de trabalho que nos deixa sem tempo para se dedicar bem a duas tarefas. Ou você faz muito bem uma coisa, ou faz muito bem a outra. Tenho uma colega de turma (que faz trabalhos em grupo comigo) que sacrifica as noites de sono para fazer os trabalhos e estudar, já que passa o dia no trabalho . É comum que no meio do expediente do trabalho dela ela tente participar de algumas discussões sobre trabalhos (mas geralmente ela some o dia inteiro), também acontece de ela ter de responder emails e atender ligações durante as aulas. Sempre fica uma coisa afetando a outra.

Eu realmente não imaginava que fazer um mestrado em Portugal fosse ser tão cobrado! Claro, não é de se esperar que seja super simples, mas no meu entendimento muita gente que faz o mestrado já está no mercado de trabalho, e portanto há de se ter uma forma de balancear a cobrança e esse outro aspecto da vida da pessoa. Não é bem assim. Então não espere chegar aqui e ter todo o tempo livre do mundo para trabalhar várias horas do dia em empregos ou outros projetos.

Inglês para todo lado

Se você vem para Portugal estudar porque não sabe inglês e acha que vai “se safar” da língua, está enganado. Os portugueses em geral (principalmente os que estão no meio acadêmico) sabem se comunicar muito bem em inglês! Os professores costumam levar para a aula apresentações em powerpoint totalmente em inglês, vídeos em inglês sem legendas, nos fazem ler artigos e livros em inglês e também usam muitas expressões em inglês. Os colegas de turma portugueses costumam falar expressões em inglês aleatoriamente na conversa. Há palestras em inglês (e não tem tradução simultânea).

Além disso, aqui temos muitos intercambistas (por conta do programa Erasmus) e vários não entendem um pingo de português. Não tem para onde fugir! Ainda bem que eu sei falar bem inglês, se não teria tido muitas dificuldades…

Tirar 10 aqui é não ir tão bem na disciplina…

As notas aqui vão de 0 a 20 valores! Pois é, não sabia dessa antes de chegar aqui, foi uma surpresa. A nota dez é a média, é o valor mínimo que um estudante deve ter numa disciplina para ser aprovado. Tirar dez aqui é o famoso “passar raspando”. Portanto não diga que um aluno é nota dez aqui se você quer dizer que ele é muito bom! 😉

Seu rendimento vai cair, e não é (totalmente) culpa sua

Falando em notas, um fenômeno comum de se acontecer com estudantes brasileiros é a queda no rendimento, se comparar com o que se tem no Brasil. O choque cultural (por menor que seja), a diferença linguística (sim, tem coisas que você não vai entender quando o professor falar, é a vida), as diferentes formas de avaliações, as metodologias de cada professor, tudo isso vai impactar no rendimento acadêmico, acredite! Se você, assim como eu, foi muito bem na graduação e estava acostumado a ter notas entre 8 e 10 (do Brasil), se prepare para não ser um floco de neve especial por aqui.

Sim, suas notas poderão não ser mais as melhores da sala. Você vai sair das provas se sentindo um fracassado. Vai se perguntar o que aconteceu, porque você não consegue mais ser bom como era antes. Mas não se preocupe, vai melhorar. Vai passar. É normal! Esse sentimento surge por conta dos pontos que mencionei no parágrafo anterior, e eles fogem ao nosso controle. Com o passar do período a gente vai se acostumando com a nova forma de fazer as coisas por cá e vai melhorando. Esse primeiro semestre eu terminei as disciplinas com duas médias 18 e três médias 17 (urrah!).

Papo reto e direto

Daaaaamn

Faz parte dos portugueses serem mais diretos no que eles querem falar. Sabe aquela expressão brasileira de “pisar em ovos”? Eles muitas vezes não pisam com cuidados nos ovos – eles esmagam brutalmente. Alguns professores irão falar coisas que irão te deixar igual a esse gif, como por exemplo: “olha, eu sinceramente acho que esse trabalho não tem nada demais, não tem nada de especial e vocês deveriam encontrar outros elementos que tornem essa história interessante”, e isso enquanto você está em pé de frente para a turma toda, sem possibilidade de abrir um buraco no chão para enfiar a cabeça (ainda bem que não foi comigo, mas me sensibilizei pelas colegas).

One system to rule them all – Um sistema para controlar tudo (referência tolkieniana)

O que faltava na universidade do Brasil na qual eu estudava eu encontrei aqui funcionando de muito bem! Um sistema eletrônico que integra diferentes funções e plataformas digitais, beneficiando alunos e funcionários da universidade (estou aqui falando da Universidade de Aveiro, ok?).

No Paco (Portal Académico Online) tem-se facilmente acesso a horários, disciplinas inscritas, pedidos de certidões e requerimentos, inscrições em programas de intercâmbio e em melhorias de notas e até é possível saber o andamento das senhas no balcão de atendimento à comunidade acadêmica. Existe um sistema de email acadêmico que funciona muito bem, e não são só os professores que podem ter acesso a esse email.

Há o eLearning onde os professores colocam de fato as apresentações powerpoint, arquivos pdf e doc que eles precisam/querem que você tenha, você também envia os trabalhos por lá e eles recebem (não tem a desculpa de que o email não chegou ou foi pro spam), além de uma forma de comunicação efetiva entre docentes e alunos que não é pelo facebook! Para completar, há um app para smartphones que é lindo de se ver, tem como achar as salas de aula pelo mapa, saber quantas vagas estão disponíveis em cada estacionamento e dá até para ver o cardápio dos refeitórios…

Além disso tudo, a Universidade de Aveiro tem internet Wi-Fi que está funcionando bem em uma boa parte do campus. Enfim, parece que eles sabem usar a tecnologia por aqui. Pode não ser perfeita, mas dá de 10 a 0 no “sistema eletrônico” da universidade que estudei (pelo menos na época que estudei).

As universidades são públicas, mas não são de graça!

Pois é! As universidades públicas cobram valores (aqui chamados de propinas) para que os cidadãos estudem nela. A grande maioria cobra bem mais caro de cidadãos de fora da União Europeia. Por exemplo, veja as taxas da Universidade de Aveiro para estudantes que queiram estudar a licenciatura/mestrado integrado e mestrado  e “não possuem nacionalidade portuguesa, não são cidadãos nacionais de um Estado da União Europeia e não residem legalmente em Portugal há mais de dois anos, de forma ininterrupta, em 31 de agosto do ano em que pretendem ingressar na Universidade de Aveiro” (retirado deste link). Eles vão de 4.000 a 5.500 euros por ano.

Agora compare esses valores com os valores pagos pelos estudantes nacionais neste link. Para estudantes nacionais (ou de outros países da União Europeia), a licenciatura ou mestrado custa sempre 1.063,47 euros por ano.  Os únicos valores que não vão mudar é o do 3º ciclo (doutorados), que são os mesmos para estudantes nacionais ou internacionais. Vê a discrepância? Faz parte.

É possível conseguir bolsas para pagar igual a um cidadão europeu? Sim! Eu consegui para meu mestrado e expliquei como foi neste post. E caso queira estudar uma licenciatura/mestrado integrado, algumas universidades portuguesas oferecem bolsas para quem obteve acima de uma certa pontuação no Enem (cheguei a divulgar uma oportunidade da UA aqui pelo blog).

Apesar de estar acostumada com as universidades públicas gratuitas do Brasil (estudei na UFPB), não fico chateada por ter que pagar as propinas, sabe porquê? Primeiro, porque eu aceitei vir para cá com essa condição. Segundo, porque eu vejo a universidade funcionar bem! Pode não ser perfeita, mas as salas de aula tem uma boa infraestrutura (o prédio onde eu estudo é recém-construído e eles acabaram de colocar uma sinalização horizontal para deficientes visuais em alguns pontos), no nosso departamento temos todos os equipamentos eletrônicos necessários para a aprendizagem (e mais por chegar), há sempre projetos de pesquisas e incentivos à vida acadêmica, enfim… Se a coisa funciona bem, significa que o dinheiro está sendo bem investido!


Vídeo que foi feito sobre o assunto:


Então, essas foram as minhas impressões sobre estudar o mestrado em Portugal. Esse foi meu primeiro semestre aqui, ainda tenho mais três! Vamos ver que outras impressões podem vir no futuro! 🙂

Comentários

comentários

Comments ( 11 )

  1. ReplyMônica Patricia
    Que bom saber que você já está perfeitamente adaptada à paisagem!! Hehehehe E quanto às suas notas...já estou até acostumada com seus excelentes resultados! Aos poucos você consegue entender as reais exigências de cada professor e alcançar os objetivos! E quanto ao quesito modernidade da UA...nossa! Fiquei literalmente "babando"! Quem não!? Boa sorte sempre! Sucesso!
    • ReplyGabriela Olem
      É, aos poucos a gente se adapta às mais diferentes situações, não é? Aqui não seria diferente. =D Beijos, mãe! ♥
  2. ReplyNaiara
    Oi, tudo bem? Estou amando seu blog, parabéns, está tudo maravilhoso. Tenho uma dúvida que se possível gostaria que me esclarecesse. Uma pessoa me informou que para fazer mestrado em Portugal, necessito ter meu histórico escolar carimbado pelo consulado Português (carimbo modelo 19). Essa informação procede? Não vi essa informação em nenhum site de universidades que estou olhando. E nem nos blogs que estou olhando falaram sobre isso. Se proceder, preciso fazer isso antes de me candidatar a vaga? Ou depois de aprovado minha candidatura? Ou é antes de solicitar o visto no consulado? Ou após? Isso me gerou muitas dúvidas. Obrigada pela atenção.
    • ReplyGabriela Olem
      Para a candidatura, pelo menos na UA, não precisa ter nada legalizado ou apostilado. Nem para a matrícula em si. Eu legalizei meu histórico no Consulado, sim, mas foi porque antes não estava fazendo o apostilamento - agora está, então após aprovada, na hora de resolver as documentações para vir estudar, recomendo apostilar seu histórico escolar para apresentar na universidade daqui. Esse histórico tem que ter um carimbo do município (caso seja de ensino fundamental), do estado (caso seja do ensino médio) ou da universidade na qual você estudou (caso seja ensino superior) antes de fazer o apostilamento. Espero ter ajudado.
      • ReplyNaiara
        Boa tarde, ajudou sim, seus esclarecimentos são ótimos. Muito obrigada.
  3. ReplyMariana Carraro
    Oi Gabi, tudo bem? O que precisa fazer e quais documentos escolares levar para o mestrado? Você simplesmente apostilou tudo ou tem algum outro procedimentos? Antes era necessário registrar no Itamaraty... Você sabe me dizer se ainda é assim? Eu vou fazer mestrado na Faculdade de Hotelaria e Turismo de Estoril e tenho dúvidas em relação a documentação. Agradeço se puder responder ou fazer um post sobre isso. Beijos... adoro seu blog :-) Mariana
    • ReplyGabriela Olem
      Olá Mariana. Dá uma olhada neste post para ver se ajuda: http://mundoafrente.com/2016/08/08/visto-de-estudante-para-portugal/
  4. ReplyCristiane Rodrigues
    Gabinete. Estou amando o blog. Foi um achado. Meu esposo tendo um visto de trabalho é aplicável esse reagrupamento familiar para q eu e nossa filha tenhamos tbm o visto?
    • ReplyGabriela Olem
      Sim, o reagrupamento é para qualquer estrangeiro (cidadão de fora da UE) que venha residir em Portugal com a família. E o resultado do reagrupamenteo não é um visto mas sim um Título de Residência.
  5. ReplyPaola Ferreira
    Olá. Venho seguindo suas informações e tenho a seguinte dúvida com relação ao processo seletivo para mestrado: as universidades são rigorosas para analisar a documentação? Eles costumam ter algum ponto de eliminação, por exemplo, notas que obtinham na graduação, cursos e pesquisas realizadas na área ...? E quanto a carta de motivação, há alguma dica do que colocar e o que não colocar? Estou finalizando a graduação em arquitetura e urbanismo e me interessei no mestrado da u.porto. Obrigada e aguardo retorno.
    • ReplyGabriela Olem
      Paola, todas as informações sobre o processo de análise de perfis devem ser explicitadas pelas universidades no edital de candidaturas. Na UA eles tinham um edital que dizia quantos pontos as coisas valiam. Eu sinceramente não lembro se fiz carta de motivação. :)

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